segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Caio, sempre e pra sempre Caio.

Caio F Abreu (Caio Fernando Loureiro de Abreu) foi um jornalista, dramaturgo e escritor brasileiro. Sua escrita é inconfundível, traz à tona o mundo moderno de uma forma dramática, angustiante e bem pessoal, abordando assuntos como sexo, medo e, principalmente, sua solidão. Caio é considerado um "fotógrafo da fragmentação contemporânea".

"Olha, antes do ônibus partir eu tenho uma porção de coisas para te dizer, dessas coisas assim que não se dizem costumeiramente, sabe, dessas coisas tão difíceis de serem ditas que geralmente ficam caladas, porque nunca se sabe como serão ditas nem como serão ouvidas, compreende?".
Caio Fernando Abreu

E esse foi o primeiro trecho que ouvi sobre este grande homem por quem hoje sou completamente apaixonada. Esse trecho saiu da boca de um professor que eu tinha de artes cênicas. Ele fez todo esse texto, que se chama "Para uma avenca partindo". O meu favorito, dos muitos que o Caio já escreveu, sendo que em seguida vem o "Sapatinhos vermelhos".
Para uma avenca partindo... Partindo do princípio que avenca se trata de uma planta, o título passa longe de ser algo romântico ou de entregar que o texto seja algo que fala de algo do tipo, mas ele é simplesmente algo que nos entrega. Entrega toda nossa fraqueza ao dizer adeus. Sim, porque dizer adeus machuca, seja no antes, durante, depois. A palavra adeus já dói. Mas quando dizemos adeus, como diria Caio, queremos dizer na verdade a-deus: entregar à Deus aquilo que já não podemos mais cuidar. É lindo, é lúdico, porém dolorido.
Quando temos que dizer adeus, não conseguimos ter as palavras exatas e neste texto o Caio mistura exatamente esta confusão, todas essas incertezas das palavras, do sim, do não, das maçãs que levamos nas bolsas quando viajamos, do nosso desespero em falar tudo na última hora quando o ônibus está partindo levando dentro dele o nosso maior bem. Deixamos para a hora do adeus nosso desespero em mostrar nosso amor, nosso carinho, nossa preocupação, nossa importância. Já parou para reparar nisso?
Deixamos para a hora da partida a conversa sobre aquele dia em que viramos as costas e dormimos, quando na verdade teríamos que ter conversado. Choramos nossas mágoas ao travesseiro, quando deveríamos ter trocado palavras e resolvido todo mal entendido. Deixamos para a hora do adeus, para dizer o quanto éramos felizes nas manhãs de sábado quando íamos passear pelas ruas asfaltadas de São Paulo, mesmo sob a fina chuva, só para comer o pastel da feira. Ou até mesmo para dizer que eu queria tanto que você soubesse o quanto eu queria ser mais comunicativa, mas tinha medo de dizer além daquilo que você suportaria escutar, por medo de te perder.

"Sim, eu sei, eu vou escrever, eu vou escrever, eu não vou escrever, mas é bom você botar um casaco, está esfriando tanto, depois, na estrada, olha, depois do ônibus partir eu quero lhe dizer uma porção de coisas, será que vai dar tempo? Escuta, não fecha a janela, está tudo definido aqui dentro, é só uma coisa, espera um pouco mais, depois você arruma as malas e as botas, fica tranquila, esse velho não vai incomodar você, olha, eu ainda não disse tudo, e a culpa é única e exclusivamente sua, porque você fica sempre me interrompendo e me fazendo suspeitar que você não passa mesmo de uma simples avenca? Eu preciso de muito silêncio e de muita concentração para dizer todas as coisas que eu tinha para te dizer, olha, antes de você ir embora, eu queria te dizer quê". 

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