A primeira vez que peguei um livro, de verdade, não foi no jardim de infância nem no ensino fundamental. Senti o peso de um livro e de suas palavras quando li Estação Carandiru, do maravilhoso Drauzio Varella.
Nasci e morei em São Paulo até meus 21 anos de idade e, vez em sempre, estava andando de metrô para visitar familiares. Dessas muitas vezes, passava pela estação Carandiru do metrô e ficava encantada por aquele complexo penitenciário. Eu devia ter no máximo 12 anos, quando ficava me questionando o que acontecia ali dentro. Sei que ali habitavam pessoas perigosas (segundo meus pais), mas eu queria saber o que pessoas perigosas faziam, ou teriam feito para estarem ali.
Via suas roupas penduradas por aquelas minúsculas janelas e me perguntava como eles respiravam… Minha mãe evitava falar a respeito, mas eu a enchia de perguntas. Sempre. Era um encanto quando a voz da “moça do vagão” falava: próxima estação, Carandiru. Grudava meus olhos na janela para não perder nenhum detalhe. Procurava as entradas, as saídas, queria avistar o rosto de algumas dessas pessoas perigosas, a qualquer custo.
Quando fiquei um pouco mais velha, vi na prateleira de um amigo o livro que contava fatos sobre esse complexo penitenciário que tanto me instigava.
Tava ali, grosso, com uma capa sombria, letras pequenas e muitas, muitas folhas. Pedi ao meu amigo aquele livro emprestado, e ele prontamente disse que sim. Posso dizer que degustei cada folha…
Naquela época, o complexo já estava desativado e diziam que ali seria feito um parque de diversões, uma praça, algo do tipo. Me encantei por cada letra, cada detalhe que o Drauzio soube expor. Pra mim, tudo foi mágico, apesar de trágico. Através desse livro, pude ver como o ser humano pode chegar ao seu extremo, no quesito de se rebaixar mesmo. Promiscuidade, sexo, drogas, doenças, armas, guerras. Mas, por outro lado, entendia que eles não tinham muitas escolhas. A parte que mais me chamou a atenção foi a que fala sobre a chacina, na qual os policiais mataram boa parte dos presos. A troco de nada.
Fiquei impressionada com a frieza dessa atitude, mas não sabia mais para que lado torcer. Cada página que eu “comia” me fazia mudar de opinião. Acabava por me perder procurando saber quem seria o mocinho ou o vilão. Através da leitura deste livro, consegui ter uma visão um pouco diferente da vida atrás das grades (apesar de estar fora delas. Graças a Deus!). Sim, há amor, há compaixão, há saudade, há esperança e há dor. Muita dor.
Parei, um pouco, de julgar essas pessoas, não importando seu passado.
As páginas que li, que falavam sobre os cuidados que eles recebiam nas enfermarias nas situações mais precárias possíveis, me fizeram ver que eu tinha sorte. Ok, eu não tinha cometido nenhum delito para merecer estar ali, mas e aí? Somos humanos, farinha do mesmo saco, penso eu.
Diariamente, minha visão sobre o mundo muda. Um dia penso que algumas coisas são justas, no outro dia já quero mudar este quadro e sair nas ruas lutando pela igualdade social, não importando se você já teve ou não que respirar por uma daquelas janelas.
Escolhas. Tudo é questão de escolhas.
De certo, nenhum dos presos nasceu querendo ver o “sol nascer quadrado”, mas não souberam escolher por vê-lo lindo e radiante, nascendo e se pondo no final da sua rua, seja em um bairro chique ou em alguma periferia desse mundo.
Escolha saber escolher.
Use as armas corretas. Use o coração… Não acredite quando dizem que ele é enganoso. O mundo sim é. As pessoas são, mas o coração… Ah, o coração não.
Não me permito mais passar pelos lugares sem saber as coisas que desejo, seja por um complexo penitenciário ou por uma mente alheia.
Cutuco, investigo, leio. Curiosa que sou, vou atrás sem medo. Devoro páginas, leio legendas, desmistifico reticências.
Me recuso a viver, e a ver, a vida através de pequenas janelas impostas por mim, ou mesmo por você.
Afinal, somos seres do mesmo meio.
Resultado do mesmo projeto.
São as escolhas que nos fazem diferentes.
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