quinta-feira, 31 de maio de 2012
Quando amar cansa.
Lembrar de você abafa o silêncio que ocupa o interior do meu carro. você
se lembra da placa dele? achei que tivesse facilidade para decorar
números. não é esse o seu truque para se vender atencioso? o vento da
madrugada parece sólido e a cidade mais agressiva. o caminho de volta,
apesar de gelado, não tem a nostalgia das minhas tardes depois das aulas
do colégio. e me agrada do mesmo jeito.
tudo mudou tanto. mas continuo sendo a menina sentada na cadeira dos
bailinhos. daquelas que, ao ganhar a vassoura, não têm coragem de
arrancar par nenhum. mesmo sonhando a semana toda com isso. mas continuo
gostando daquelas tardes. frio, chocolate e um livro, deitada na cama.
algo que nunca vou renunciar. soa tão egoísta. nunca. nem quando o
próximo namorado tentar me arrastar para contemplá-lo no mar. deverá
agradecer já que de praia só gosto nesses dias. cinzas. gelados. as
ondas brigando para ver qual delas aparece mais. me deixe sozinha. não
me acorde desse descanso. quero ver até onde você chega. porque o
inverno está aí. é quando você decide que vai me chamar para a próxima
dança. é quando o vento tenta socar a ponta do meu nariz e eu vou ter
uma desculpa para usar roupas e postura discretas. é quando algum babaca
vai se sentar do meu lado e achar que me leva pra casa, se prometer
enternidade. se estiver sóbria, posso sorrir. mas vou continuar na minha
cadeira. tomando talvez aquele tinto seco que colore os meus dentes. e
que você odeia. talvez olhe para a porta. e espere a sua entrada cheia
de falsa humildade. você ainda acha que convence alguém? o silêncio
dentro do carro é cortado por um soluço. meu choro abortado. que nenhuma
lágrima ouse me contrariar. ainda pergunto por que teve de terminar
assim. a esta altura eu deveria ter vergonha. eu tenho. eu quero fazer
você parar. eu não consigo. a sua ligação interrompe a tranquilidade de
meu caminho de volta. esquece. dessa vez não vou me levantar. a cadeira
virou escolha. ouvir a música daqui parece melhor. e ver a pista cheia
já não me surpreende. ver você no meio dela escolhendo o próximo amor
próprio pra destruir já faz parte das nossas madrugadas. prometo não te
interromper com a minha vassoura. não vou te privar do papel de
ridículo. que só agora percebo. denunciado em uma frase vazia distorcida
pela sua dicção embriagada. e quando sua cena não tiver mais graça –
porque seu sorriso já não encanta como antes – pago a conta e saio à
francesa.
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