Não sei quem foi, mas com certeza essas palavras foram proferidas por
alguém muito sábio: “voltar pra um velho amor é que nem ler um livro
pela segunda vez – você já sabe como vai terminar.” Sim, porque nosso
coração romântico tende a achar que isso é exagero, que sempre há
chances quando há amor, e que nunca é tarde pra se arrepender. A realidade, porém, tem se mostrado impiedosamente contrária a esse nosso ideal romântico de relacionamentos.
Ficar com alguém só por amor é uma péssima ideia.
Pessoas que se recusam a acreditar esse fato acabam quebrando a cara
incontáveis vezes. Porque o amor é necessário, mas ele, sozinho, não
sustenta uma relação. É preciso muito mais do que isso. Parceria,
respeito, companheirismo, objetivos de vida similares, sexo de
qualidade, são apenas algumas dentre as diversas características
necessárias pra se sustentar um relacionamento formado por duas pessoas
distintas. Sem elas, desculpe-me o Cazuza, nem todo amor que houver
nessa vida é o bastante.
Quando um relacionamento termina é porque alguns dos pilares básicos
não estavam fortes o bastante e, acredite se quiser, na maioria das
vezes o amor não é um deles. Porque é muito comum observar casais que
terminam ainda se amando. O amor continuava intacto, mas outras
afinidades não estavam bem estruturadas o que impossibilita a
continuidade de um relacionamento feliz. Só que a carência, a saudade da
rotina, as noites frias de domingo sozinha na cama, nos fazem acreditar
no contrário. É mais fácil ceder do que resistir. E nós, fracos que
somos, ficamos assustadíssimos diante de uma realidade na qual não temos
mais o conforto de uma relação que fez parte da nossa existência por
tanto tempo. Recomeçar é difícil demais. O vazio machuca demais. E no
meio dessa fase dolorosa de recuperação, eis que surge o ex – uma
esperança no fim do túnel pra nos tirar do sofrimento. Como a mente
mente, ela nos faz acreditar que dessa vez vai ser diferente, que tudo
vai mudar – e nós, num ato de desespero, voltamos. Muito provavelmente
pra descobrir – depois que a fase da empolgação de um novo começo acaba –
que nada mudou.
Costumo comparar essas segundas chances como alguém que anda de
bicicleta. Você estava pedalando feliz até que um dia levou um tombo e
estourou o joelho, que ficou em carne viva. Daí você sente dor, passa
remédio, faz curativo. Só que a vontade de andar de bicicleta de novo é
tão grande que, mal a ferida cicatrizou, e você já sai pedalando de
novo. Até que passa novamente por um buraco e se estatela no chão. O
pobre joelho que estava começando a se recuperar, retrocede, ficando
ainda mais machucado do que antes. Tudo isso porque você não soube
dar-lhe o tempo necessário pra se recuperar, pra se renovar, pra trocar
de pele. Experimente trocar o joelho pelo seu coração – é assim que você
age quando volta pra um amor antigo por causa da carência. Seu coração
estava no processo de cura, precisando de cuidado, de isolamento, até
que estivesse pronto pra outra. Mas você ignorou o aviso do corpo. Se
entregou novamente àquele amor antigo, que você sabia que lhe faria mal,
cedo ou tarde. Se tivesse dado o tempo necessário para a cura completa,
aí sim estaria pronta pra andar de bicicleta novamente e explorar
outras esquinas pelo mundo. Dessa vez, consciente, fortalecida e
preparada. Mas você foi fraca e, como não poderia ser diferente,
estatelou seu coração mais uma vez.
Por isso já dissemos por aqui que ser feliz é mesmo pros corajosos.
Aqueles que jamais se esquecem que o maior amor do mundo tem que ser o
amor próprio. Sempre que você passa em cima desse amor em nome do amor
por outra pessoa, o resultado já é conhecido – você ativa o botão do VDM
(vulgo, vai dar merda.) E sempre dá, as estatísticas confirmam. Por
isso, sempre que nos sentirmos tentados a dar uma outra chance pra
algo/alguém que nos fez mal, deveríamos nos lembrar que a vida é boa,
que é bela, e que estamos aqui em contagem regressiva, por isso não há
tempo pra apostar nos mesmos erros. Só assim nos permitiremos, antes de
qualquer coisa, dar uma segunda chance pra nós mesmos.
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