E você espera o sinal abrir. Olha os carros. Lembra da conta de
celular que vence amanhã. Nem reparou no muro grafitado na sua frente.
Alguém, em algum momento, gastou algumas horas da sua vida pintando
aquele muro. Escolheu as cores a dedo. Criou personagens. Chegou em
cores. Mas você nem viu. Quando muito, reparou de relance que aquela
esquina tinha mais cores do que o resto da cidade cinza.
Não há nada de errado com a sua visão. De óculos, você nunca precisou
na vida. Você vê muito bem. O problema está na forma como enxerga as
coisas.
Sabe, tem uma grande diferença entre ver e enxergar. Você viu os
doces na vitrine. Mas não enxergou o coração detalhadamente feito pelas
mãos habilidosas e precisas confeiteira em cima do cupcake. Você viu seu
colega de trabalho chegando. Mas não exergou que havia algo de errado
com os olhos dele que brilhavam menos e traziam uma pequena bolsinha
inchada na parte de baixo, coisa de quem chorou na noite passada. Você
vê o cachorro atravessando a rua. Mas não enxerga que ele é um ser que
conversa com os olhos. Você vê o cara bonito e de roupa bacana
conversando com você na balada. Mas não enxerga que sua linguagem
corporal e seus elogios entregam que ele só quer te comer e nada mais.
Esse é um dos motivos pelos quais muita gente diz que não encontra
ninguém legal pra namorar. Num universo com tantos seres, pra todos os
gostos, ela insiste em dizer que só encontra cafajestes. Talvez isso
aconteça porque ela vê os homens, mas não os enxerga de verdade. Quem
tem antena ligada e os sentidos abertos, fala com você e te escuta, mas,
paralelamente, enxerga outras coisas. Repara no tom da sua voz e na
ansiedade que vem junto com ela. Repara na sua dificuldade ou facilidade
em fitá-los nos olhos. Repara no seu riso, se ele é verdadeiro. Repara
nas suas reações quando lança assuntos polêmicos. O externo, é só
detalhe. O externo é mascarável. Você pode acordar no seu pior dia e
tentar enganar o mundo colocando roupa nova, arrumando o cabelo,
carregando na maquiagem. Quem somente vê, não percebe que há algo de
errado. Os que vêem enxergando, já sacam de cara que alguma coisa
aconteceu com o seu ser.
Esse despertar dos sentidos traz mais mudanças do que você gostaria
de acreditar. Você provavelmente dispensou dezenas de homens legais que
se aproximaram porque não conseguiu enxergar além do óbvio. Estava se
achando a mulher madura e experiente e, bobinha, confiou nas armadilhas
da sua mente. Mal se lembrou que a mente mente. Ela analisa os fatos de
acordo com a perspectiva dela. O coração vai muito além – ele ultrapassa
a barreira do palpável, do racional, e capta aqueles sentimentos que a
gente insiste em esconder. Coração tem visão translúcida pra máscaras –
elas enganam a todos, menos a ele. Saint-Exupéry tentou nos ensinar isso
quando disse que “só se vê bem com o coração. o essencial é invisível
aos olhos.” Com certeza você já leu essa frase antes, mas talvez não a
tinha entendido direito – talvez porque tenha visto as palavras, mas não
enxergado real seu significado. Tem gente que não entende e talvez,
jamais entenderá. Mas não é com elas que a gente fala.
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