O nome daquilo era medo. Aquele mesmo que sentiu quando caiu do
balanço no parquinho pela primeira vez quando ainda criança. Todo
domingo de sol acordava ansioso para ir ao parque, encontrar os amigos,
alçar vôos cada vez maiores no seu balanço preferido. Cada nova vez no
brinquedo queria extrapolar todos os limites e ir cada vez mais alto.
Até que um dia ele caiu do balanço. Até que
num lindo e ensolarado domingo no parque, as mãos ficaram frágeis demais
e ele caiu do balanço. E a partir desse trágico dia, tudo em sua vida
girava em torno de um letreiro luminoso gigantesco que piscava
intermitentemente: “E SE…”.
Era tanta dúvida, tantas vírgulas, reticências e interrogações que
era impedido de dar dois passos adiante sem que ficasse estagnado dois
passos atrás. E se der errado, e se acontecer de novo, e se doer, se
ferir, se machucar, e se for em vão e se não for. Eram muitos “se”, eram
muitas possibilidades ou impossibilidades numa frase só. Era uma
gramática inteira de pontuações empregadas da maneira errada num romance
que mais parecia um conto breve. A gente acorda, dá um beijo no
namorado (a), toma banho, faz o café, trabalha, dança, volta pra casa,
faz a janta, beija o namorado, assistem TV até pegarem no sono, dorme e
no outro dia começa tudo outra vez. Mas a verdade é que ninguém sabe
como vai ser o dia de amanhã. De forma que, o único “se” perdoável é
aquele que te permite viver intensamente o agora, o hoje. E se não
houver o dia de amanhã?
Nunca mais subiu num balanço na vida. A adrenalina gerada pela
simples entrada no parque era tão grande, que só a aproximação do
brinquedo o fazia relembrar da queda. E se afastava. Sabia que podia ser
seguro novamente, mas o temor da possibilidade criava uma barreira
enorme entre o menino e o balanço. Perdeu risos, o ar puro de quando
chegava ao ápice de seu vôo, perdeu os cabelos soltos ao vento, o sol
iluminando a face quando chegava ao ponto mais baixo da trajetória,
perdeu requintes de felicidade que não voltariam mais.
A verdade é que tem certas coisas na vida que a gente só descobre o
rumo delas, entrando no caminho, ou seja, tentando. A gente deixa de
tomar atitudes, transfere comportamentos, arruma desculpas pra problemas
que seriam facilmente resolvidos com uma palavra que abre portas:
“sim”. Sim, eu me permito tentar. A possibilidade de cair do balanço
sempre existe, mas não me parece justo desistir de um desejo, de um
sonho, por puro medo. Tirar o pé do chão às vezes dá um certo receio,
uma insegurança acerca do tamanho da queda se o pé não repisar na hora
certa. Mas até pra andar e ir adiante, a gente precisa sair um pouco do
chão seguro. É preciso coragem. Cair não fere ninguém. Pode doer, deixar
um ou dois arranhões, mas com o tempo isso passa, o que fere de verdade
é a cicatriz que não te deixa esquecer do que passou.
Já dizia uma sábia amiga minha: O “não” você já tem, busca o “sim”.
Porque a gente não precisa que todos os passeios no balanço da vida dêem
certo, a gente precisa que funcione só uma vez, uma “vezinha” só, e já
vai ser válido, já vai ser eterno. Todo dia é dia de recomeçar, de dar
uma chance ao sim. SE vai dar errado, não dá pra prever. Porque se der
errado você pode amaldiçoar o mundo inteiro, mais vai dormir com a
cabeça tranquila no travesseiro que você fez o que estava ao seu alcance
fazer. Em compensação, se funcionar, o universo garante nada menos do
que a felicidade, cabelos soltos novamente ao vento e uma infinidade de
pontuações gramaticais que não refletem em nada o peso de uma vírgula ou
uma reticência.
O menino temia o balanço. Ficava ali sentado perante seu brinquedo
favorito sem conseguir brincar. Enquanto todos a sua volta enfrentavam
seus medos e receios, enquanto todos se divertiam no ali e no agora, sem
pensar no amanhã, ele só conseguia observar, lamentar e calar. Sozinho.
Um dia ele vai envelhecer, assim como todos nós, e tudo que vai
restar a ele são os “se”, os mesmos de quando era jovem. A diferença é
que quando a maturidade ensinar a ele que tempo não se compra, não se
vende, mas sim se divide, o parque, os sorrisos, o vento no rosto, o
balanço, o tão almejado balanço pode não existir mais. Uma oportunidade
perdida, é um segundo que poderia ter feito a diferença pro resto da sua
vida. “E se” esse minuto voltar, não vai ter a mesma força, o mesmo
ímpeto, o mesmo querer. Por isso antes de desistir da brincadeira, de
abandonar o balanço, o parque, as flores…não se perca. Não perca o
minuto, não perca o balanço.
E se só dessa vez, for diferente?

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