terça-feira, 29 de maio de 2012

Brega, eu?


Fulano é brega. Por que usamos o verbo SER ? A partir de que momento a preferência de um indivíduo passou a SER a sua identidade? Sabemos que a preferência religiosa também “É”: “fulano é evangélico”. E a preferência sexual: “ela é gay”. Deveríamos ser realmente qualificados pelo que gostamos, ouvimos, comemos e consumimos?
Gosto muito do verbo estar. “Fulano está espírita. Já esteve católico e evangélico”. Como não é estático, fulano pode ESTAR qualquer outra religião na próxima década. Ou até nenhuma.
Quantos de nós já mudamos de religião, de time, de valores, de humores? Acredito até que existam pessoas tão cristalizadas que só possam SER...e não ESTAR. Mas são poucos. Os inflexíveis! Mesmo para eles o tempo passa. E o tempo é o maior flexor de todos! Os que não se dobram com o tempo e a tempo, simplesmente quebram. Como galhos secos.
Três parágrafos introdutórios para dizer...que adoro o Calypso! “Vem na levada do estado do Pará”. Joelma, guerreira... Adoro o Reginaldo Rossi com sua “raposa” e suas “uvas”. Além do “garçom”. E músicas de Sidney Magal? Viraram Cult. Gretchen anda por aí nas festas Ploc 80’s e...eu vi o Bozo de pertinho na última Ploc!
Brega pode ser uma saia de camurça. Mas se for da Fashion Week, a saia é in. A minha é tom carmim por falar nisso. E comprei na feirinha. Brega pode ser a Lapa. Nós, cariocas, simplesmente amamos. É kitsch? É brega? É bom demais!
Ir ao Cristo é brega? Ir ao zoológico talvez. Pessoas me encaram com piedade quando comento: “me apaixonei pela avestruz e pela ema”! Nem sei se sabem quem é “ema”. Talvez pensem que ESTOU gay.
Curiosamente, na contramão de tudo isso, sabemos dizer “ESTOU apaixonado” e “ESTOU te amando”. É que apenas estamos. Agora. O que sinto por você tem como garantia SER apenas um ESTADO no presente do indicativo. E isto é tudo o que pode indicar. A singela verdade. Pegar ou largar. “Eu sei que VOU te amar” é mais um desejo de amá-lo do que uma certeza. No futuro, não sabemos o que vamos ESTAR. Mas há quem diga “SOU gamado em você”. Esses são viscerais, não? O amado já está dentro deles como um dente, um fígado, um rim. A farinha da massa do bolo. “Tamo junto, misturado”. O importante é poder sobreviver a uma separação. Entender se o amado tiver que partir. Liberar. Sem deixar sua alma-massa desandar.
Que tal ESTAR brega agora? Esteja brega por uns cinco minutos. E, então, me conte. Como está a sua breguice neste momento? O que você ouve, sente e vê? Em que momento de sua história você foi parar? Boca de sino e Gumex? “Um fio de cabelo” no seu paletó? Ivone Lara? Ombreira, orelhão com ficha e Atari? A Jovem Guarda e o Tremendão ou “isso é Tremendo...” tocando numa “festa americana”?
Se você for muito sensível, brinque de brega sozinho para evitar as críticas dos chiques. Mas se for sem vergonha mesmo, faça melhor. Prepare o uísque com guaraná e ponha um band-aid no calcanhar. Você tem vinil? Convide seus amigos para estarem bregas com você em tal hora e tal lugar. Vistam as roupas mais criticadas, ouçam as músicas mais ridicularizadas pelos “descolados”. Sirvam ponche e aquela breguice com salsichas e azeitona (sacanagem) em palitos fincados num isopor com papel alumínio. Leve umas calcinhas para jogar quando Wando cantar. Deixe o Agepê te amar “como se fosse o primeiro” e finja que Milli e Vanilli realmente são os donos das vozes de seus singles. Você não sabe de cor “a deusa” da Rosana? Mas que “tititi”! Deixe-se “voar, voar, subir, subir” com Biafra. E fique “a dois passos do paraíso” com a Blitz. Arraste a mesinha de centro para “Eduardo e Mônica” e toda uma legião. E a “vida bandida” do Lobão.
Esteja brega a ponto de olhar as estrelas com Ray Connif na vitrola. E a “preta” de Beto Barbosa? No calhambeque do Roberto. É uma brasa, mora? Paquitas num “sonho de verão”. Rime balão com coração. E você vai perder? John Travolta e Olivia em DVD!
Ah, gente, “tô indo agora prum lugar todinho meu. Quero uma rede preguiçosa” como a Internet para acessar... E Roberta Miranda. Mirando o brega. No melhor gerúndio possível.

Vivi Luz

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