Se meu coração não se emociona mais com a presença dele, fiquei me perguntando o que eu estava fazendo ali.
Se não sonho mais, não planejo mais, não desejo mais, não espero mais nada, o que eu estava fazendo ali?
Não te amo mais, queria dizer a ele, pela primeira
vez, sem esperar que ele sofresse com isso. Sempre quis que ele sofresse
com esse dia. Mas justamente porque eu não o amo mais, nem quero mais
que ele sofra. Aliás, não quero mais nada. Só ir embora.
Claro que sobrou um carinho, uma amizade, uma graça.
Mas tudo aquilo que era gigantesco, tudo aquilo que parecia ser maior do
que eu mesma, que me soterrava, que me transportava pra outra
realidade...tinha acabado. Então, por quê?
Quero namorar esse homem? Não. Quero casar, ter
filhos, envelhecer ao lado dele? Não mais. Nunca mais. Quero dormir com
ele, ainda que daquele jeito errado em que minha solidão procura um
abraço e a solidão dele procura sei lá eu o quê? Não. Quero reviver uma
memória pra me sentir viva, emprestar uma alegria pura do passado? Não,
tô fora de continuar sempre no mesmo lugar, me roubando minhas próprias
histórias.
Quero lamentar a falta de um beijo inteiro, um abraço
de verdade, um carinho sem medo e uma atenção entregue sem nenhum
egoísmo? Não. Não quero mais mudar ou fantasiar ninguém. Deixa o mundo
ser como é. Deixa ele ser como ele é.
O que eu queria, que era jogar uma conversa fora com
uma pessoa que me conhece tão bem e há tantos anos, eu já tinha
conseguido. Matar o tempo, rir da alma. E só. Coisa de no máximo uma
hora. Mas eu já estava lá há duas.
Quando ele finalmente parou de falar e a minha cabeça
parou de gritar, o silêncio me contou um segredo que há muito tempo eu
já desconfiava: é preciso coragem pra sair do automático.
Quando minha mãe briga comigo, mesmo ela sendo uma
senhorinha fofa e eu tendo o dobro do tamanho dela, sinto uma espécie de
medo descabido e antigo, como se eu ainda fosse aquele menininha de
maria-chiquinha. É o sininho do Pavlov, que fazia o cachorro babar por
comida mesmo que não estivesse mais com fome. A mente é automática,
viciada, comandada, acostumada.
Quando entro em um avião, mesmo eu tendo mais de
trinta anos nas costas e milhas acumuladas de muitas viagens, minha
mente insiste em me mandar lembranças da mesma menina de
maria-chiquinha, que tinha medo de ficar longe da mãe, que passava mal
longe de casa, que odiava lugares fechados e altos.
E é por isso que quando ele, a pessoa que eu mais amei
no mundo (amei sem os bloqueios e sem a amargura que veio depois de
tanto amor) me pede pra ficar, eu fico. Se alguma química do meu cérebro
obedeceu aquela voz por anos, por que haveria de parar de obedecer
agora?
Mas ontem, quando finalmente peguei minha bolsa e fui
embora, senti um alivio imenso e novo. E combinei que meus pensamentos
condicionados não mandam mais nada. Nadinha. Chega de ser comandada pela
parte mais sem alma da minha existência.
Ainda que encarar um coração vazio seja mais
assustador do que obedecer à velhos padrões, o prazer da coragem é
sempre muito maior que qualquer susto.
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