quarta-feira, 25 de março de 2015

Um amor, por favor

Estou eu aqui deitada em minha cama pensando na máxima mais ouvida nos últimos tempos: nada como um novo amor para curar o que um antigo feriu.
Sempre achei isso meio clichê e nunca apoiei isso, essa ideia. Até neste momento, quando Isabela Taviani danou-se a cantarolar no meu rádio, é algo mais ou menos do tipo "eu e você podia ser/mas o tempo mudou a direção". Fato que Isabela já cantou pra mim e por mim, inúmeras vezes. Ri e chorei com suas letras, dediquei cada uma delas, fiz delas meu arrimo, meu chão para que eu pudesse passar. Pela janela do ônibus a ouvia cantar e, sem saber do meu futuro, me acabava em lágrimas. Daquelas bem doloridas, cheias de angustias... E não é que todas elas secaram? Eu achava difícil, mas secaram. Todas. Hoje ouço as canções da Isabela e lembro com o maior carinho do mundo daquela fase, daquela pessoa, daquele amor. Não é porque acabou não era amor. Era sim e era verdadeiro e dedicado.
Hoje me limito a não ouvir certas intérpretes, pois algumas ainda me trazem lembranças que me entristecem, sabe? Elis Regina é uma delas. Ainda não consigo ouvir sua voz sem trazer à tona toda uma história por mais que seu fim ja tenha chegado ha tempos...
Talvez uma canção nos cure da outra também, eu acho. Assim como Elis me curou da Isabela, sei que em breve alguém me curará da Elis e eu poderei ouvi-la saudosamente e pensando o quanto amei. Se fui amada? Me restam duvidas, muitas, mas a respeito das canções eu nunca as terei.
E não mais da frase tão clichê.
Quero ser curada do amor pelo amor para o resto da minha vida.

Hoje meu hino é Socorro da Gal Costa.

Volto pra dizer que o disco mudou de lado, que houve troca do CD e que um novo amor me trouxe uma nova canção.

Me aguardem.

domingo, 8 de março de 2015

Promessa

Eu prometi que nunca mais choraria, prometi à mim mesma e aos meus pensamentos que não derramaria mais nenhuma lágrima. Sim, eu prometi, mas hoje foi inevitável não deixar uma lágrima rolar. Através do vidro do carro eu via pessoas e me perguntava o que elas estariam sentindo naquele exato momento, pois eu estava triste. Não seria justo eu ser triste sozinha naquela hora. Será que até nessas horas eu serei sozinha?
Deixei lágrimas caírem e elas eram pesadas, cheias de amargura, decepção, lotadas de sonhos destruídos por mesquinha e egoísmo. Não meus.
Não é fácil às vezes, confesso.
E, às vezes, me vejo tão triste. Hoje.
Atravessei aquela ponte e cada pedaço dela havia algo, algo que me fazia chorar e me encher de questionamentos.
Me diga como você pode viver indo embora?
Talvez você seja feliz sem saber.

É isso.
Só isso.
Tudo isso.

terça-feira, 3 de março de 2015

SOBRE O MEDO DE AMAR DE NOVO

Olhando assim de longe, com olhos mirando o sorriso, a leveza dos passos acompanhando as horas, a delicadeza ao esconder a franja atrás da orelha, mal se sabe da bagagem muitas vezes pesada, que nos acompanha na travessia. O amor costuma deixar rastros, pegadas, marcas duras que sobrecarregam a singela malinha reformada em vivos tons florais que levamos no entrelaçar dos dedos, ao longo da vida. A gente pega tudo aquilo que um dia doeu, machucou, feriu, negligenciou, e coloca ali, naquela mala cheia de flores radiantes, que é pra lembrar que até na dor se consegue algum perfume.
Nos bares, na balada, no cinema, no jantar com as amigas, lá está ela, nossa doce pintura floral recheada de medos, receios, lágrimas, despedidas, resquícios de chegada, beijos que selaram partidas, a nos lembrar aquilo que os grandes poetas já previam, o amor pode vir  bem de mansinho a nos dilacerar de novo.
Penso nos passarinhos que nos cortejam com a sinfonia do amanhecer mesmo ainda de janelas fechadas, pois sabem que o dia chega para todos, mesmo que a noite seja um pouco mais longa para alguns.
E como as melhores coisas da vida, surgem assim, em acasos afortunados, a mocinha da padaria retribui seu sorriso na fila do pão, o cara do elevador resolve te auxiliar com os milhões de papéis ou simplesmente aquele gato/a da rede social da sua irmã te envia uma solicitação de amizade acompanhada de um convite para o jantar de quinta feira. É o amor pedindo passagem. É o amor com uma pá, uma vassoura e uma chave pra destrancar o cadeado dessa bagagem tão friamente lacrada a cada ida e vinda.
A mão se estende acompanhada de um inquestionável sorriso no olhar, mas logo o braço recua. É que dá um medo danado se apaixonar de novo. No meio de um monte de cacos, estilhaços, mágoas, dores, aparece alguém com uma “super cola”, um sorriso lindo e diz: levanta menina! Um milhão de decisões equivocadas, atitudes impensadas e impulsos desconexos passam pela nossa cabeça e você hesita. Hesita, porque cicatriz de amor é uma das coisas mais difíceis de se carregar na bagagem. Não tem roupa, cachecol, colar ou armadura que esconda a marca eterna daquilo que não ficou. E a iminência do amor, traz também muitas vezes, o presságio de uma nova ferida.
Daí a gente olha para o lado e tem a amiga traída pelo namorado, o rolo inconsistente da mesa ao lado, o beijo sem sentimento do cara balada, todos os sms não correspondidos e pensa: não seria emocionalmente mais prudente caminhar sozinha?!
De fato seria. Mas ai tem também aquela amiga radiante com os preparativos do casamento, o pedido inusitado de namoro de dois desconhecidos no corredor da faculdade, a troca de olhares amorosos do casal de amigos no bar, e todo o medo que motivava o receio some, como num doce passo de mágica. Os pequenos requintes de delicadeza como o gorjeio de um bem-te-vi pela manhã, nos fazem lembrar a parte mais importante do amor: aquela que não dói.
É verdade o que dizem por ai: amor é coisa de gente corajosa, amor é coisa de dois. Talvez por isso seja tão absurdamente difícil criar vínculos com alguém. Não basta haver oportunidade, tem que existir troca, predisposição. Tem que existir parceria. Aquela que você troca sua bagagem pela do outro por livre arbítrio e juntos, libertam para o mundo todas as pétalas mortas, daquela flor, que um dia foi um suave buquê. Ao invés de bagagens, mãos dadas. Ao invés de peso, leveza. O amor antes um pássaro engaiolado, agora, permite-se ser livre.
Penso nos passarinhos da janela, na saudação do bem-te-vi, em primeiras, segundas e terceiras chances, penso em passarinhar.
Se o passarinho vier: dê passagem, ofereça sua bagagem e abra os caminhos. Porque amor de verdade se a gente deixar, muda a vida da gente. Passarinhe, aninhe, ame por aí…

DD